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Contos Zen Budista (Budismo Chan)

CONTOS ZEN BUDISTA (BUDISMO CHAN)

 

O maior contato que pude ter com a cultura e conhecimento da filosofia Chan alem dos livros traduzidos no Brasil e as visitas nos templos durante minha estadia na China, foi aprender Kung Fu com um Mestre que também é Budista.

O Budismo Zen como é chamado no Japão, de onde se popularizou o termo é o mesmo que na China é denominado Chan, e tem uma estrita ligação com as Artes marciais chinesas.

Durante as incontáveis horas de conversas que nos alongávamos após os treinos, no período noturno em meu apartamento, eu passava horas ouvindo sobre a pratica Zen/Chan e sua aplicabilidade em nosso dia-a-dia.

Característica marcante do Mestre Li Hon Ki é dar ênfase aos ensinamentos práticos, deixando de lado tudo aquilo que não se pode constatar com a aplicação e sentimento.

Tomado por este sentimento, pude experimentar de forma aplicada grande parte do que esta filosofia / religião pode proporcionar ao praticante.

Desta forma, passo a transcrever contos desta filosofia, a qual faz uso deste mecanismo para ensinar suas lições de vida e espiritualidade.

Tais contos deve ser fonte de reflexão e analise, para posterior aplicação em nosso dia-a-dia, no que cada um julgar aplicável.

Sobre os Homens

Perguntaram a Dalai Lama:


"O que mais te surpreende na Humanidade?"


E ele respondeu:


"Os homens...


Porque perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde...


Porque pensam ansiosamente no futuro e, por isso, esquecem-se do presente de tal forma que acabam

por não viver nem o presente, nem o futuro...


E porque vivem como se nunca fossem morrer e morrem como se nunca tivessem vivido!"

************

Momentos finais da vida

Há muito tempo atrás, um mestre zen, muito velho, aguardava os seus últimos momentos de vida. O seu último dia chegara e ele declarou que naquela noite não estaria mais ali.

Nesse momento, os seus seguidores, discípulos e amigos começaram a vir. Havia muitas pessoas que o amavam, todas elas começaram a chegar de todos os lugares do mundo

.Um dos seus discípulos mais antigos, quando ouviu que o Mestre ia morrer, correu para o mercado. Então, alguém perguntou:

— O Mestre está a morrer na sua cabana e tu vais ao mercado?



— Sim, eu sei que o Mestre adora um determinado bolo — respondeu o discípulo. — Então vou lá comprar o bolo.

Foi difícil encontrar o bolo. Mas à noite, quando finalmente conseguiu, ele correu para a cabana do Mestre.

Todos estavam preocupados — era como se o Mestre estivesse à espera de alguém. Ele abria os olhos, olhava à sua volta e fechava-os novamente. Quando o discípulo chegou, ele disse:

— Bem, finalmente chegaste! Onde está o bolo?

O discípulo mostrou o bolo, muito contente com a pergunta do Mestre.

À beira da morte, o mestre pegou o bolo na mão... mas a mão não tremia... Ele era muito velho, mas a mão dele não tremia. Então alguém perguntou:

O senhor é muito idoso e está à beira da morte, mas sua mão não treme.

— Eu nunca tremo — respondeu o Mestre —, porque não tenho medo.
O meu corpo ficou velho, mas eu ainda sou jovem, e permaneço jovem mesmo quando o meu corpo está a morrer.

Então o Mestre deu uma mordida no bolo e começou a mastigar ruidosamente. E então alguém perguntou:

— Qual é a sua última mensagem, Mestre? O senhor deixar-nos-á em breve.
O que gostaria que nós recordássemos de si?

O Mestre sorriu e disse:

— Ah, este bolo está uma delícia!

***********

A CASA DOS MIL ESPELHOS

Há algum tempo atrás existia, numa distante e pequena vila, um lugar conhecido como A Casa dos Mil Espelhos.

Certo dia, um pequeno e feliz cãozinho soube deste lugar e decidiu visitar.

Quando lá chegou, saltitou feliz escada acima até a entrada da casa. Olhou através da porta de entrada com suas orelhinhas bem levantadas e abanando a sua cauda, tão rapidamente quanto podia.

Para sua grande surpresa, deparou-se com outros mil pequenos e felizes cãezinhos, todos a abanarem as suas caudas, tão rapidamente quanto a dele.

Nesse momento, deu um enorme sorriso e foi correspondido com mil sorrisos enormes. Quando saiu da casa pensou: 'Que lugar maravilhoso! Voltarei sempre, um milhão de vezes'.


Na mesma vila havia outro pequeno cãozinho, não tão feliz quanto o primeiro, que decidiu também visitar a casa.

Subiu lentamente as escadas e espreitou através da porta.

Quando viu mil cães a olhá-lo fixamente, rosnou e mostrou os dentes e ficou assustado ao ver mil cães a rosnar-lhe e a mostrar-lhe os dentes.

Saiu a correr e pensou: "Que lugar horrível, nunca mais volto aqui!"

Todos os rostos no mundo são espelhos

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O COPO DE ÁGUA COM SAL

O velho mestre pediu a um jovem triste que colocasse uma mão cheia de sal dentro de um copo com água e em seguida bebesse.

- "Qual é o gosto?" - perguntou o Mestre.

- "Ruim " - disse o rapaz.

O Mestre sorriu e pediu ao jovem que pegasse noutra mão cheia de sal e o acompanhasse. Os dois caminharam em silêncio até um lago, onde o velho pediu ao jovem que deitasse o sal, dizendo-lhe logo depois:

- "Bebe um pouco dessa água".


Enquanto a água escorria pelo queixo do jovem, o mestre perguntou:

- "Qual é o gosto?"

- "Bom!" - disse o rapaz

- "Dá para sentir o gosto do sal?" - perguntou o mestre.

- "Não" - disse o jovem.

Então o mestre sentou-se ao lado do jovem, pegou-lhe na mão e disse:

- "A dor na vida de uma pessoa não muda. Mas o sabor da dor depende do lugar onde a colocamos. Então quando sentires tristeza ou dor a única coisa que deves fazer é deixar de ser copo e tornares-te lago...

*********

O FILÓSOFO E A VERDADE

Um filósofo perguntou a Buddha:

"Sem palavras, sem silêncio, podeis vós revelar-me a Verdade?"

Buddha permaneceu em silêncio.

O filósofo agradeceu profundamente e disse:

"Com a vossa amável generosidade eu esclareci minha Ilusão e penetrei no verdadeiro caminho."

Depois de o filósofo ter partido, Ananda interrogou a Buddha o que é que o filósofo tinha obtido.

Buddha replicou:

"Um bom cavalo corre logo, apenas por ver a sombra do chicote."

******

O MUDO E O PAPAGAIO

Um jovem monge perguntou ao mestre Ji-shou:

"Como é que chamamos a uma pessoa que entende uma verdade, mas não pode explicá-la em palavras?"

"Uma pessoa muda comendo mel" - disse o mestre

."E como chamamos uma pessoa que não entende a verdade, mas fala

muito sobre ela?"

"Um papagaio imitando as palavras de uma outra pessoa".

*****

O TIGRE E O MORANGO

Certa dia, Buddha contou a um jovem que parecia desesperado:

Há algum tempo atrás, um homem que estava a caminhar pelo campo encontrou um tigre. Assustado, ele começou a correr e o tigre correu atrás dele.

Aproximando-se de um precipício, o homem pegou nas raízes expostas de um arbusto selvagem e pendurou-se, precipitadamente, para baixo. O tigre o farejava-o acima. Tremendo de medo, o homem olhou para baixo e viu, no fundo do precipício, outro tigre à sua espera. Apenas a raiz do arbusto o sustinha.

Porém, ao olhar para a planta viu dois ratos, um negro e outro branco, que estavam a roer aos poucos a raiz. Nesse momento, os seus olhos descobriram no arbusto um belo morango, ali mesmo ao seu lado. Aí, o homem segurou a raiz só com uma mão, e com a outra pegou no morango e comeu-o.

"Que delícia!" - disse ele.

********

A BELA MOÇA E A LAMA

Tanzan e Ekido viajavam juntos por uma estrada lamacenta, enquanto uma pesada chuva caía, dificultando a caminhada. Chegandos a uma curva, encontraram uma bela moça vestida com um quimono de seda, incapaz de passar devido à lama.

"Venha, menina!" - disse Tanzan de imediato, ajudando-a a atravessar o lamaçal, carregando-a nos braços.

Ekido não disse nada até regressarem ao Templo. Aí ele não se conteve mais e disse:

"Nós monges não nos aproximamos de mulheres, especialmente das jovens e belas. É perigoso. Porque fizeste aquilo?"

Tanzan respondeu:

"Eu deixei a rapariga lá, tu ainda a estás a carregar?"

********

JARDINEIRO E O COCÓ

Era uma vez um cocó.


Um cocozinho feio e mal-cheiroso, deixado no meio do pasto de uma quinta. Coitado do cocó! Desde que aparecera no mundo que tentava conversar com alguém, fazer amigos, mas quem passava por ali não queria saber dele:

- Blargh! Cheira mal! - diziam as crianças.

- Cuidado! Não pisem essa porcaria! - avisavam os adultos.

Um dia, vendo um homem aproximar-se dele pensou: “Mais um que vai gozar comigo”.

No entanto, o homem foi-se aproximando com um sorriso aberto no rosto e quando chegou perto do cócó exclamou:

- Mas que maravilha! Que belo cocó! É exatamente o que eu estou a precisar!

Esse homem era um jardineiro. E usando uma pá, com muito cuidado, levou o cocó para um lindo jardim. Ali, acomodou-o na terra, ao pé de uma roseira.

Alguns dias depois, o cocozinho percebeu, feliz e orgulhoso, que tinha sido graças à sua força que uma magnífica rosa vermelha tinha brotado na roseira.

 

De Quem é o Presente?

 

Perto de Tóquio vivia um grande samurai idoso que agora se dedicava a ensinar o zen aos jovens. Apesar de sua idade, corria a lenda de que ainda era capaz de derrotar qualquer adversário. Certa tarde, um guerreiro conhecido por sua total falta de escrúpulos apareceu por ali. Era famoso por utilizar a técnica da provocação: esperava que seu adversário fizesse o primeiro movimento e, dotado de uma inteligência privilegiada para reparar os erros cometidos, contra-atacava com velocidade fulminante. O jovem e impaciente guerreiro jamais havia perdido uma luta. Conhecendo a reputação do samurai, estava ali para derrotá-lo, e aumentar sua fama. Todos os estudantes se manifestaram contra a ideia, mas o velho aceitou o desafio. Foram todos para a praça da cidade, e o jovem começou a insultar o velho mestre. Chutou algumas pedras em sua direcção, cuspiu em seu rosto, gritou todos os insultos conhecidos, ofendendo inclusive seus ancestrais. Durante horas fez tudo para provocá-lo, mas o velho permaneceu impassível. No final da tarde, sentindo-se já exausto e humilhado, o impetuoso guerreiro retirou-se.

Desapontados pelo fato de que o mestre aceitar tantos insultos e provocações, os alunos perguntaram: - Como o senhor pode suportar tanta indignidade? Por que não usou sua espada, mesmo sabendo que podia perder a luta, ao invés de mostrar-se covarde diante de todos nós?
- Se alguém chega até você com um presente, e você não o aceita, a quem pertence o presente?

- A quem tentou entregá-lo - respondeu um dos discípulos.
- O mesmo vale para a inveja, a raiva, e os insultos - disse o mestre - Quando não são aceitos, continuam pertencendo a quem os carregava consigo. A sua paz interior, depende exclusivamente de você. As pessoas não podem lhe tirar a calma, só se você permitir...

Decisões

Há uma anedota Zen sobre uma mulher, que não conseguia decidir-se por qual porta deveria sair de certo aposento. Ambas as portas levavam ao mundo exterior. Após algumas horas de indecisão, ela empilhou algumas esteiras diante de uma das saídas e caiu em um sono profundo. De manhã cedo, levantou-se e examinou o mesmo problema novamente. Uma das portas estava livre, mas a outra estava bloqueada por uma pilha de esteiras. Ela suspirou finalmente: "Agora eu não tenho escolha."

Chávena de Chá

Um professor de filosofia foi ter com um mestre zen, Nan-In, e fez-lhe perguntas sobre Deus, o nirvana, meditação e muitas outras coisas.

O Mestre ouviu-o em silencio e depois disse.

- Pareces cansado. Escalaste esta alta montanha, vieste de um lugar longínquo. Deixa-me primeiro servir-te uma chávena de chá.

O Mestre fez o chá. Fervilhando de perguntas, o professor esperou. Quando o Mestre serviu o chá encheu a chávena do seu visitante e continuou a enche-la. A chávena transbordou e o chá começou a cair do pires até que o seu visitante gritou:

- Pára. Não vês que o pires está cheio?

- É exatamente assim que te encontras. A tua mente está tão cheia de perguntas que mesmo que eu responda não tens nenhum espaço para a resposta. Sai, esvazia a chávena e depois volta.

Inferioridade


Um samurai, conhecido por todos pela sua nobreza e honestidade, veio visitar um monge Zen em busca de conselhos. Entretanto, assim que entrou no templo onde o mestre rezava, sentiu-se inferior, e concluiu que, apesar de toda a sua vida ter lutado por justiça e paz, não tinha sequer chegado perto ao estado de graça do homem que tinha à sua frente.

- Por que razão me estou a sentir tão inferior a si? Já enfrentei a morte muitas vezes, defendi os mais fracos, sei que não tenho nada do que me envergonhar. Entretanto, ao vê-lo meditar, senti que a minha vida não tem a menor importância.

- Espere. Assim que eu tiver atendido todos os que me procurarem hoje, eu dou-te a resposta.

Durante o resto do dia o samurai ficou sentado no jardim do templo, a olhar para as pessoas que entraram e saíram à procura de conselhos. Viu como o monge atendia a todos com a mesma paciência e com o mesmo sorriso luminoso no seu rosto. Mas o seu estado de ânimo ficava cada vez pior, pois tinha nascido para agir, não para esperar. De noite, quando todos já tinham partido, ele insistiu:

- Agora podes-me ensinar?

O mestre pediu que entrasse, e conduziu-o até o seu quarto. A lua cheia brilhava no céu, e todo o ambiente inspirava uma profunda tranquilidade.
- Estás a ver esta lua, como ela é linda? Ela vai cruzar todo o firmamento, e amanhã o sol tornará de novo a brilhar. Só que a luz do sol é muito mais forte, e consegue mostrar os detalhes da paisagem que temos à nossa frente: árvores, montanhas, nuvens. Tenho contemplado os dois durante anos, e nunca escutei a lua a dizer: por que não tenho o mesmo brilho do sol? Será que sou inferior a ele?

- Claro que não - respondeu o samurai. - Lua e sol são coisas diferentes, e cada um tem sua própria beleza. Não podemos comparar os dois.
- Então, tu sabes a resposta. Somos duas pessoas diferentes, cada qual a lutar à sua maneira por aquilo que acredita, e a fazer o possível para tornar este mundo melhor; o resto são apenas aparências.

A Rocha

O aluno perguntou ao Mestre :


- Como faço para me tornar o maior dos guerreiros ?

- Vá atrás daquelas colina e insulte a rocha que se encontra no meio da planície.

- Mas para que, se ela não vai me responder ?

- Então golpeie-a com a tua espada.

- Mas minha espada se quebrará !

- Então agrida-a com tuas próprias mãos.

- Assim eu vou machucar minhas mãos ... E também não foi isso que eu perguntei. O que eu queria saber era como que eu faço para me tornar o maior dos guerreiros.

- O maior dos guerreiros e aquele que é como a rocha, não liga para insultos nem provocações, mas está sempre pronto para desvencilhar qualquer ataque do inimigo e sem precisar desembainhar sua espada.

O inferno e o céu


Atacado na própria honra, o samurai teve um acesso de fúria e, sacando da bainha sua espada, berrou

- Eu poderia matar-te por tua impertinência!

- Isso é o Inferno – respondeu o Mestre
Espantado por ver a verdade no que o mestre dizia, o samurai embainhou a espada e sorriu, fazendo-lhe uma reverência

- E isso é o Céu – disse o Mestre.

Apego

Um dia morreu o guardião de um mosteiro Zen. Para descobrir quem seria a nova sentinela, o mestre convocou os discípulos e disse

:
- O primeiro que conseguir resolver o problema que eu vou apresentar assumirá o posto

Então numa mesa que estava no centro a sala colocou um vaso de porcelana muito raro, com uma rosa amarela de extraordinária beleza.

E disse apenas:

- Aqui está o problema!

Todos ficaram olhando a cena: o vaso belíssimo, de valor inestimável, com a maravilhosa flor ao centro! O que representaria? O que fazer? Qual o enigma? De repente um dos discípulos saca da espada, olha para o mestre, dirigi-se para o centro da sala e... Zazzz! Com um só golpe destruiu tudo.
- Você é o novo guardião. Não importa que o problema seja algo lindíssimo. Se for um problema, precisa ser eliminado.

Mais Devagar

Um jovem atravessou o Japão em busca da escola de um famoso praticante de artes marciais. Chegando ao dojo, foi recebido em audiência pelo Sensei.
- O que você quer de mim ? perguntou-lhe o mestre

- Quero ser seu aluno e tornar-me o melhor karateca do país. Quanto tempo preciso estudar ?

- Dez anos, pelo menos.

- Dez anos é muito tempo respondeu o rapaz . E se eu praticasse com o dobro da intensidade dos outros alunos ?

- Vinte anos.

- Vinte anos! E se eu praticar noite e dia, dedicando todo o meu esforço ?

- Trinta anos.

- Mas, eu lhe digo que vou dedicar-me em dobro, e o senhor me responde que a duração será maior ?


- A resposta é simples. Quando um olho está fixo aonde se quer chegar, só resta um para se encontrar o caminho.

O Monge e o Escorpião na Ponte


Um monge cruzava uma ponte na qual mal se conseguia equilibrar. Embora seus passos fossem curtos e lentos, a ponte cada vez baloiçava mais. Nisto um escorpião, escondido na ponte, começou a subir pela sua mão. Continuou lentamente pelo braço até alcançar-lhe o ombro . O monge gelado de medo parou a sua caminhada. Antes de entrar em pânico lembrou-se de respirar fundo e acalmar a mente. O escorpião não se mexeu e, como numa providência divina, uma rajada de vento fe-los balançar violentamente e o escorpião caiu pelo abismo. Feliz , o monge agradeceu ao vento e seguiu sua caminhada.

Beber Chá


Temos que estar totalmente despertos para apreciar o chá como deve ser. Temos que estar no momento presente. Apenas com a consciência no presente, as nossas mãos podem sentir o agradável calor da chávena. Apenas no presente podemos apreciar o aroma, sentir a doçura e saborear a delicadeza. Se estamos a lembrar o passado ou preocupados com o futuro, perdemos por completo a experiência de apreciar a chávena de chá. Olharemos para a chávena e o chá terá já terminado.


A vida é assim. Se não estamos totalmente no presente, quando olharmos à nossa volta esta terá desaparecido

.
Quando pararmos de pensar no que já aconteceu, quando pararmos de nos preocupar com o que poderá nunca vir a acontecer, então estaremos no momento presente. Só então começaremos a experimentar a alegria de viver...


O Chapéu de Chuva à Porta


Certa vez um Mestre mandou que chamassem determinado discípulo, que se encontrava recluso em sua cabana, nos arredores de um mosteiro Zen. Este discípulo já estava com este Mestre há anos, treinando sob sua direcção. Como o Mestre tinha muitos discípulos, era difícil de se conseguir uma entrevista particular com ele. O discípulo achou inusitado o fato do Mestre estar chamando-o para uma conversa. Começou a ficar excitado, pensando: "o que será que o Mestre deseja de mim?", "será que ele vai me perguntar alguma coisa sobre o Dharma, para me testar?", "será que ele deseja me atribuir algum cargo ou tarefa?". Com a mente repleta de pensamentos, pôs-se o monge a andar. Como estava chovendo, levou seu guarda-chuva.
Ao chegar à casa do Mestre, ele fechou o guarda-chuva, colocou-o a um canto. Pôs suas sandálias molhadas do lado do guarda-chuva. Na frente do Mestre, fez as mesuras que mandam a etiqueta monástica e sentou-se. O Mestre então foi logo perguntando:

- Quando você entrou aqui, de que lado do guarda-chuva você deixou suas sandálias?

O monge discípulo não conseguiu se lembrar com certeza. O Mestre então declarou:

- Volte para sua cabana e medite!

Desta maneira, o Mestre quis dizer que meditação e vida quotidiana são uma única realidade. Não podemos separar a nossa vida diária do ato de atenção com que devemos fazer todas as coisas. O discípulo estava separando, e vendo que ainda não estava preparado o suficiente o Mestre recomendou que ele voltasse para sua cabana e meditasse mais. A prática budista é no dia a dia.

O Observador


Certo dia um rei chamou ao seu palácio o mestre zen Muhak - que viveu de 1317 a 1405 - e lhe disse que, para afastar o cansaço e a tensão do trabalho administrativo, queria ter uma conversa completamente informal com ele. Em seguida, o rei comentou que Muhak parecia um grande porco faminto procurando comida.

- E você, excelência parece o Buda Sakiamuni meditando, sobre um pico elevado dos Himalaias.

O rei ficou surpreso com a resposta de Muhak.

- Comparei você a um porco, e você me compara ao Buda?

- É que um porco só pode ver porco, excelência, e um Buda só pode ver Buda

Inferno e céu colectivos

Mestre e discípulo foram até uma região onde havia fartura de arroz mas os habitantes daquele lugar possuíam talas em seus braços, o que os impedia de levarem o alimento à própria boca. No meio daquela fartura, passavam fome e eram fracos e subnutridos!

- Veja! - Disse o Mestre - Isto, é o inferno coletivo.

Em seguida, o Mestre guiou o Discípulo para uma região próxima e mostrou que nela também havia fartura de arroz e as pessoas também tinham os braços atados a talas mas eram saudáveis e bem nutridas pois uma levava o arroz à boca do outro, em um processo de interdependência e cooperação mútua.


- E isto é o Céu coletivo.

O Ladrão e a Lua


Ryokan, um mestre Zen, vivia a mais simples e frugal das vidas em uma pequena cabana aos pés de uma montanha. Uma noite um ladrão entrou na cabana apenas para descobrir que nada havia para ser roubado. Entretanto Ryokan voltou e o surpreendeu lá.


- Você fez uma longa viagem para me visitar e você não deveria retornar de mãos vazias. Por favor tome minhas roupas como um presente.

O ladrão ficou perplexo. Rindo de troça, ele tomou as roupas e esgueirou-se para fora. Ryokan sentou-se nu, olhando a lua.

- Pobre coitado, gostaria de poder dar-lhe esta bela lua.

Sermão da Montanha

Um dos monges do mestre Gasan visitou a universidade em Tokyo. Quando ele retornou, ele perguntou ao mestre se ele jamais tinha lido a Bíblia Cristã.

- Não - Gasan replicou - Por favor leia algo dela para mim.
O monge abriu a Bíblia no Sermão da Montanha em São Mateus, e começou a ler. Após a leitura das palavras de Cristo sobre os lírios no campo, ele parou. Mestre Gasan ficou em silêncio por muito tempo.


- Quem quer que proferiu estas palavras é um ser iluminado. O que você leu para mim é a essência de tudo o que eu tenho estado tentando ensinar a vocês aqui.

Morte

Um homem muito rico pediu a um mestre Zen um texto que o fizesse sempre lembrar do quanto era feliz com a sua família. O mestre Zen pegou num pergaminho e, com uma linda caligrafia, escreveu:

- O pai morre. O filho morre. O neto morre.

- Como? - disse, furioso, o homem rico. - Eu pedi-lhe alguma coisa que me inspirasse, um ensinamento que fosse sempre contemplado com respeito pelas minhas próximas gerações, e o senhor dá-me algo tão depressivo e deprimente como estas palavras?

- O senhor pediu-me algo que lhe fizesse lembrar sempre a felicidade de viver junto da sua família. Se o seu filho morrer antes, todos serão devastados pela dor. Se o seu neto morrer, será uma experiência insuportável.

Equanimidade

Durante as guerras civis na China feudal, um exército invasor poderia facilmente dizimar uma cidade e tomar controle. Numa vila, todos fugiram apavorados ao saberem que um general famoso por sua fúria e crueldade estava se aproximando. Todos excepto um mestre Zen, que vivia afastado.
Quando chegou à vila, seus batedores disseram que ninguém mais estava lá, além do monge. O general foi então ao templo, curioso em saber quem era tal homem. Quando ele lá chegou, o monge não o recebeu com a normal submissão e terror com que ele estava acostumado a ser tratado por todos; isso levou o general à fúria.

"Seu tolo!!" ele gritou enquanto desembainhava a espada, "não percebe que você está diante de um homem que pode trucidá-lo num piscar de olhos?!?"
Mas o mestre permaneceu completamente tranqüilo.

"E você percebe," o mestre replicou calmamente, "que você está diante de um homem que pode ser trucidado num piscar de olhos?"

Sonho

Certa vez o mestre taoista Chuang Tzu sonhou que era uma borboleta, voando alegremente aqui e ali. No sonho ele não tinha mais a mínima consciência de sua individualidade como pessoa. Ele era realmente uma borboleta. Repentinamente, ele acordou e descobriu-se deitado ali, uma pessoa novamente. Mas então ele pensou para si mesmo:
"Fui antes um homem que sonhava ser uma borboleta, ou sou agora uma borboleta que sonha ser um homem?"

Nada Existe

Yamaoka Tesshu, quando um jovem estudante Zen, visitou um mestre após outro. Ele então foi até Dokuon de Shokoku. Desejando mostrar o quanto já sabia, ele disse, vaidoso:


- A mente, Buddha, e os seres oniscientes, além de tudo, não existem. A verdadeira natureza dos fenômenos é vazia. Não há realização, nenhuma delusão, nenhum sábio, nenhuma mediocridade. Não há o Dar e tampouco nada a receber!

Dokuon, que estava fumando pacientemente, nada disse. Subitamente ele acertou Yamaoka na cabeça com seu longo cachimbo de bambu. Isto fez o jovem ficar muito irritado, gritando xingamentos.

- Se nada existe," perguntou, calmo, Dokuon, "de onde veio toda esta sua raiva?

O Quebrador de Pedras

Era uma vez um simples quebrador de pedras que estava insatisfeito consigo mesmo e com sua posição na vida.

Um dia ele passou em frente a uma rica casa de um comerciante. Através do portal aberto, ele viu muitos objetos valiosos e luxuosos e importantes figuras que freqüentavam a mansão.

- Quão poderoso é este mercador! - pensou o quebrador de pedras.

Ele ficou muito invejoso disso e desejou que ele pudesse ser como o comerciante.

Para sua grande surpresa ele repentinamente tornou-se o comerciante, usufruindo mais luxos e poder do que ele jamais tinha imaginado, embora fosse invejado e detestado por todos aqueles menos poderosos e ricos do que ele.


Um dia um alto oficial do governo passou à sua frente na rua, carregado em uma liteira de seda, acompanhado por submissos atendentes e escoltado por soldados, que batiam gongos para afastar a plebe. Todos, não importa quão ricos, tinham que se curvar à sua passagem.

- Quão poderoso é este oficial! - ele pensou. - Gostaria de poder ser um alto oficial!

Então ele tornou-se o alto oficial, carregado em sua liteira de seda para qualquer lugar que fosse, temido e odiado pelas pessoas à sua volta. Era um dia de verão quente, e o oficial sentiu-se muito desconfortável na suada liteira de seda. Ele olhou para o Sol. Este fulgia orgulhoso no céu, indiferente pela sua reles presença abaixo

- Quão poderoso é o Sol! - ele pensou. -Gostaria de ser o Sol!

Então ele tornou-se o Sol. Brilhando ferozmente, lançando seus raios para a terra sobre tudo e todos, crestando os campos, amaldiçoado pelos fazendeiros e trabalhadores. Mas um dia uma gigantesca nuvem negra ficou entre ele e a terra, e seu calor não mais pôde alcançar o chão e tudo sobre ele.

- Quão poderosa é a nuvem de tempestade! - ele pensou - Gostaria de ser uma nuvem!

Então ele tornou-se a nuvem, inundando com chuva campos e vilas, causando temor a todos. Mas repentinamente ele percebeu que estava sendo empurrado para longe com uma força descomunal, e soube que era o vento que fazia isso.

- Quão poderoso é o Vento! - ele pensou. - Gostaria de ser o vento!

Então ele tornou-se o vento de furacão, soprando as telhas dos telhados das casas, desenraizando árvores, temido e odiado por todas as criaturas na terra.

Mas em determinado momento ele encontrou algo que ele não foi capaz de mover nem um milímetro, não importasse o quanto ele soprasse em sua volta, lançando-lhe rajadas de ar. Ele viu que o objeto era uma grande e alta rocha.

- Quão poderosa é a rocha! - ele pensou. - Gostaria de ser uma rocha!

Então ele tornou-se a rocha. Mais poderoso do que qualquer outra coisa na terra, eterno, inamovível. Mas enquanto ele estava lá, orgulhoso pela sua força, ele ouviu o som de um martelo batendo em um cinzel sobre uma dura superfície, e sentiu a si mesmo sendo despedaçado.

- O que poderia ser mais poderoso do que uma rocha?!? - pensou surpreso.

Ele olhou para baixo de si e viu a figura de um quebrador de pedras.

 

Sem Problema

Um praticante Zen foi à Bankei e fez-lhe esta pergunta, aflito:

- Mestre, Eu tenho um temperamento irascível. Sou às vezes muito agitado e agressivo e acabo criando discussões e ofendendo outras pessoas. Como posso curar isso?

- Tu possuis algo muito estranho. - replicou Bankei. - Deixe ver como é esse comportamento.

- Bem... eu não posso mostrá-lo exatamente agora, mestre. - disse o outro, um pouco confuso.

- E quando tu a mostrarás para mim? - perguntou Bankei.

- Não sei... é que isso sempre surge de forma inesperada. - replicou o estudante.

- Então, - concluiu Bankei, - essa coisa não faz parte de tua natureza verdadeira. Se assim fosse, tu poderias mostrá-la sempre que desejasse. Quando tu nasceste não a tinhas, e teus pais não a passaram para ti. Portanto, saibas que ele não existe.

 

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